Pessoas: grandes decisões, grandes desafios

As decisões sobre a composição da equipe são as de maior impacto sobre o sucesso profissional de um líder. De acordo com Claudio Fernández-Aráoz, apontado pela Bloomberg Businessweek como um dos headhunters mais influentes do mundo, “Qualquer gestor tem de ter como prioridade cercar-se dos melhores de maneira sistemática”. No entanto, empresas do mundo todo ainda não chegaram a esse ponto e, por isso, ainda não obtêm o melhor dos melhores. E não realizam, assim, sua responsabilidade moral de gerar riqueza.
A principal razão do fracasso corporativo e individual são as decisões erradas sobre pessoas no topo, segundo apontam diversos estudos, inclusive os conduzidos por Jim Collins, o autor de Como as gigantes caem (ed. Campus/Elsevier), corroborados por Fernández-Aráoz. “Se uma decisão errada sobre as pessoas do topo da organização for tomada, as consequências são enormes, porque essas pessoas gerem grandes recursos, são extremamente poderosas”, resume ele, em entrevista ao Wall Street Journal.
Além disso, uma boa decisão sobre pessoas evita a mediocridade que vem sendo denunciada por muitos experts da gestão. O headhunter concorda que a mediocridade é uma realidade universal. Um dos motivos para isso é que os gestores não fazem tudo o que é preciso para ter as melhores pessoas nas posições-chave.
As empresas não estão sendo proativas, de acordo com a avaliação do pesquisador, que é o autor de Grandes decisões sobre pessoas (ed. DVS). “Ou são autocráticas, ou excessivamente democráticas”, diz ele. É frequente que somente uma pessoa tenha voz, mas igualmente frequente é que pessoas demais sejam ouvidas na seleção, não obstante sua falta de capacidade para avaliar os candidatos.
Não há uma única razão para o despreparo, mas existe uma razão de base: não somos treinados para selecionar nosso pessoal, nem mesmo nos programas de MBA. “Levamos anos e anos estudando contabilidade e finanças, mas nenhum tempo é dedicado a aprender a tomar grandes decisões sobre pessoas”, afirma o especialista.
Dicas do especialista
Por onde começar, então? Tomando consciência de que tais decisões são cruciais. Sabendo realmente como são importantes, o gestor terá motivação para aperfeiçoar-se nelas. Afinal, seu pescoço e sua empresa estão em jogo.
O passo seguinte para o líder, decorrente dessa tomada de consciência, é assumir a responsabilidade pela escolha de sua equipe. Não se delega tal tarefa. Sim, a área de Recursos Humanos tem papel fundamental no processo seletivo, mas as principais decisões ficam a cargo do gestor contratante, que deve se envolver ativamente em todo o caminho que vai do recrutamento à integração do novo colaborador, principalmente se estivermos falando da contratação de altos executivos.
Fernández-Aráoz afirma que o gestor deve evitar o erro comum de não seguir um processo disciplinado, que abranja decisões sobre quando é preciso substituir alguém ou mudar a equipe, que perfil deve ser buscado, onde deve ser procurado e como o contratado deve ser integrado. Ele faz algumas recomendações práticas ao líder:
• Analise cada uma das posições que se reportam diretamente a você.
• Entenda quais são as prioridades de gestão e as competências críticas de cada cargo.
• Faça uma busca que garanta diversidade de candidatos potenciais.
• Avalie-os com rigor.
O rigor da avaliação inclui a verificação de referências. Mas não se trata simplesmente de fazer uma ligação para a pessoa que o candidato indicou e perguntar se há algo que o desabone. Trata-se de ser mais profundo, de explicar para o interlocutor que a pessoa está sendo considerada para determinada função e que terá de demonstrar certas habilidades. Com base nisso, a pergunta a ser feita é: “Você tem exemplos de situações passadas em que o candidato demonstrou ter tais habilidades?”.
Nós, os latinos
Como argentino e conhecedor de empresas do mundo todo, Fernández-Aráoz consegue ter uma visão comparada entre a cultura latina e as demais. Em entrevista à revista Executive Excellence, ele recorre ao pesquisador Fons Trompenaars para assinalar que nas culturas latinas dão mais importância a títulos e situação social do que às conquistas, à experiência, para considerar alguém merecedor de reconhecimento. Privilegiamos as relações. Nas culturas anglo-saxãs, por outro lado, a tendência é privilegiar o dever, a norma.
“Creio que nós, latinos, deveríamos fazer um esforço para nos comportarmos como anglo-saxões, porque há uma responsabilidade moral muito importante, de criação de valor na empresa e de criação de riqueza para a sociedade”, pondera.
Nesse sentido, a seleção de pessoas pode ser considerada uma responsabilidade moral, que deve seguir critérios objetivos de idoneidade, competência e capacidade de realizar bom trabalho. “As culturas latinas ainda precisam aperfeiçoar-se nas decisões de promover ou contratar em função da competência para o posto, e não de relações pessoais”.
Mas não é o caso de nos sentirmos menores. A dificuldade de tomar grandes decisões sobre pessoas é um fato no mundo todo. É por isso que Fernández-Aráoz concentrará suas pesquisas deste ano, como revelou à revista Harvard Business Review, em responder às seguintes perguntas: Por que as principais decisões sobre pessoas continuam a ser tomadas como que ao acaso? Por que os processos continuam errados, quando há tantos estudos mostrando o que realmente funciona?
Talvez essas sejam perguntas que o especialista faça durante sua palestra do dia 6 de abril em São Paulo, no Fórum HSM Gestão e Liderança. Talvez ele venha com algumas hipóteses. Contudo, você certamente pode começar a refletir desde já no contexto de sua própria empresa.
Referências:
BLOOMBERG BUSINESSWEEK. “World's most influential headhunters”. 1 fev. 2008. Disponível online em <http://www.businessweek.com/managing/content/feb2008/ca2008021_934452.htm>. Acesso em 23 fev. 2011.
FERNÁNDEZ-ARÁOZ, Claudio. “Cracking the code for making great people decisions”. Harvard Business Review. Disponível online em <http://hbr.org/web/extras/hbr-agenda-2011/claudio-fernandez-araoz>. Acesso em 23 fev. 2011.
NEEDLEMAN, Sarah. The Wall Street Journal. Podcast com Claudio Fernández-Aráoz. Disponível online em <http://podcast.mktw.net/wsj/audio/20070413/pod-wsjneedleman/pod-wsjneedleman.mp3>. Acesso em 23 fev. 2011.
ORTIZ, Federico F. S. “Claudio Fernández-Aráoz: reflexiones prácticas de management”. Executive Excellence, n.56, jan. 2009. Disponível online em <http://www.eexcellence.es/index.php?option=com_content&view=article&id=164:claudio-fernandez-araoz-reflexiones-practicas-de-management&catid=39:alta-direccion&Itemid=41>. Acesso em 23 fev. 2011.
Por Alexandra Delfino de Sousa, administradora de empresas e diretora da Palavra-Mestra.
Portal HSM
24/02/2011

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